Garra e coragem, dois itens em falta no elenco do Avaí ao longo de todo o primeiro turno, salvo raras exceções. Faltou um pouco de ritmo de jogo aqui, um pouco de preparo físico ali, mas tudo poderia ter sido superado num campeonato tão fraco como este catarinense se os jogadores avaianos tivessem tido um pouco mais de garra e coragem.
Ao menos esse foi o exemplo dado pelos jogadores avaianos que conquistaram a Copa SC, na mesma Joinville, há 15 anos atrás. Campeões da garra e da coragem ao enfrentar o mais difícil ano do clube que possuí o maior cartel de títulos do Estado e que naquela temporada fazia sua reestréia na primeira divisão após enfrentar – e vencer – a Segundona estadual em 1994.
Realidade dura e de muitas privações, bem diferente do atual momento do elenco avaiano, que recebe bem e em dia, tem o Estádio mais moderno do Estado, tem toda a assistência estrutural de um time de Série A e pode se dar ao luxo de fazer pré-temporada em Gramado. No distante ano de 1995 prevaleceu acima de tudo o slogan do “Time da Raça”, que enfrentava as dificuldades de cabeça erguida e sangue azul nas veias.
O ano de 1995 chegou ao fim com, em média, dois meses de salários atrasados, fora bonificações e outros direitos trabalhistas. Dos dirigentes vinham promessas que dificilmente eram cumpridas, mas mesmo assim o objetivo dos jogadores foi alcançado.
Foram 12 meses de resposta em campo. Neste período os jogadores vestiram a camisa do clube a ponto de em determinados dias se deslocarem a pé para os treinamentos na Ressacada. O Avaí não tinha verbas para a aquisição de vale-transportes e nem todos os jogadores tinham carro, ao contrário do elenco atual, muito bem motorizado com seus carros importados de luxo.
Em 1995 os jogadores provaram que título se ganha em campo. Pactos de vitória, união do grupo e constantes apelos dos mais veteranos – como Belmonte – sustentaram o plantel unido até o dia do desabafo do ponta Claudiomir em jogo que eliminou o Joinville em pleno Ernestão por 3 X 1 na segunda partida da final da Copa SC: “esse titulo é nosso e da torcida”, desabafou nos microfones da Radio Guarujá.
“Já fizemos a nossa parte, agora que façam a parte deles”, referindo-se aos cartolas avaianos que não tinham dinheiro para o 13º dos atletas e funcionários. Aliás, Claudiomir Beretta então com 24 anos, foi o protagonista das crises financeiras do Avaí. O atleta foi pego de surpresa ao saber que seu passe havia sido penhorado pela Justiça do Trabalho por conta de uma dívida trabalhista impetrada por um ex-vigia do clube.
O Avaí vivia uma situação caótica, ao ponto de leiloar um ser humano como forma de se livrar de uma ação trabalhista, problema que Davi, Caio, Robson, Rudnei, Leonardo - se Nossa Senhora da Ressacada permitir – felizmente nunca terão que passar.
Com idade média de 22 anos, o elenco de 95 passou por maus bocados antes de erguer a taça de campeão. Até no dia da partida decisiva os constrangimentos foram inevitáveis. Momentos antes de embarcar, a delegação não tinha dinheiro suficiente para abastecer o ônibus com o combustível necessário para ir e voltar de Joinville.
E, o pior, não havia verba para o lanche antes da partida. Alertados do problema, alguns empresários torcedores fizeram uma vaquinha e reuniram o dinheiro do combustível e do cachorro-quente. Após o jogo, com o título já conquistado, o ônibus ainda quebrou no trajeto de volta, sendo locado um outro veículo para a continuação da viagem.
Após o título, uma comissão de empresários torcedores tentou levantar R$60 mil referente ao débito com os jogadores e funcionários do clube. Mais uma vez a torcida avaiana fez a diferença com pequenos gestos emocionantes. Um cheque nominal ao Avaí foi entregue aos Conselheiros por um avaiano anônimo e humilde: “Talvez tenha sido este o valor de seu 13º”, comentou um conselheiro ao anunciar o valor do cheque: R$600 reais.
Garra e coragem. Comprometimento e paixão. Profissionalismo e vergonha na cara. Raça, amor e paixão. Não tinha estrutura de Série A e nem dinheiro, mas tinha o essencial para continuar existindo.
Felipe Matos é historiador e membro do blog Minha VidAvaí.
(Fonte: reportagem de Júlio Castro, AN, 30/12/1995.).
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