O que será que leva alguém a ser presidente de um clube de futebol? Na foto ao lado, João Salum, eterno presidente do Avaí. Sempre extrovertido e brincalhão, Salum uma vez disse que ser presidente de um clube é um excelente exercício de masoquismo. Com certeza a luta para se arrecadar o vil metal indispensável para deixar a casa em ordem deve ter tirado o sono de absolutamente todos os presidentes da galeria presidencial do Avaí. Não raro os presidentes avaianos foram homens que dilapidaram parte do seu patrimônio pessoal para manter o sonho avaiano vivo.
Uns foram mais ricos do que outros, mas todos deram sua contribuição da maneira que puderam. Nilson Fidélis torrou alguns automóveis de sua loja para recolocar o Avaí no caminho dos títulos. Não foram raras as vezes que a conta do Avaí no extinto restaurante de Dilmo Pires, no Campeche, foi pendurada. O restaurante se foi, mas a conta ainda deve estar lá, ao lado da coleção de camisetas de futebol que Dilmo colecionava na parede. Zunino fez e faz empréstimos em nome de sua empresa particular para manter o crescimento do Avaí, mas sonha transformar um dia o Leão da Ilha num time auto-sustentável.
Masoquismo? Vaidade? Paixão? O que um Presidente faz pelo seu time pode atingir as raias do absurdo. No Avaí, João Salum talvez tenha sido a figura mais folclórica e emblemática do que foi ser um Presidente avaiano. Aliás, minto. As funções de Salum em muito extrapolaram os limites da presidência. Salum era o messias salvador, como bem definiu o cronista Paulo Fernando Lago. Quem o assistia desfilar pela praia de Canasvieira com sua bermuda samba-canção talvez não vislumbrasse que aquele homem, durante muitos anos, foi o porto seguro do Avaí Futebol Clube.
Sempre que o Avaí entrava em depressão, ele era reclamado como se fora um presidente de plantão, uma caixinha de pronto-socorro. Depois que as coisas melhoravam Salum retornava ao seu paraíso na rua Conselehiro Mafra com a missão cumprida, entre panos e chitas, em sua casa de tecidos. E lá aguardava uma nova piorada avaiana para novamente entrar em cena. Dizia-se que Salum nem devolvia a chave da sede avaiana, se é que havia chave.
Salum se foi e ficaram muitas lembranças e histórias engraçadas, como no dia em que uma emissora de rádio ficou devendo a taxa de transmissão e Salum tirou o equipamento da rádio da tomada no meio da transmissão. Salum sempre foi um defensor do patrimônio avaiano e durante anos se negava a transferir as partidas importantes do Avaí do Adolfo Konder para o Orlando Scarpelli, então um estádio maior e mais moderno que o velho Campo da Liga, caindo aos pedaços.
Em sua gestão foi fechado o negócio da venda do Adolfo Konder, mas Salum só aceitou sair do velho campo quando a Ressacada estivesse totalmente pronta. No dia da inauguração estava lá nas bilheterias e de olho nos espertinhos que queriam pular o muro da Ressacada como quem furava o alambrado do Adolfo Konder. Hoje, além de guardado na lembrança, Salum virou nome de rua, uma rua por onde desfilam os avaianos em carreata, sempre a comemorar uma nova vitória do Leão...
Felipe Matos é historiador e membro do blog Minha VidAvaí.
(Fonte: O Estado, 17/01/1980.)
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