Futebol do povo
O aumento nas mensalidades dos sócios avaianos é um claro exemplo de que o Avaí pretende mudar o perfil dos freqüentadores da Ressacada. A ideologia implantada pelos departamentos de marketing dos clubes – fenômeno mundial - é transformar a ida aos Estádios num evento para poucos e ricos torcedores. Os estádios se transformarão em shoppings e centros administrativos. Os investimentos em modernização apontarão para cadeiras, camarotes e acomodações Vips. O perfil dos freqüentadores que se busca é o do jovem, rico, capaz de consumir produtos licenciados e freqüentar quiosque e franquias.
O futebol, alegria do povo, não existe mais. Ou melhor, ficará ainda mais restrito aos campos de várzea, TV aberta e TV-Gato. Os gastos do futebol moderno exigem que os clubes se tornem empresas autônomas, sem a necessidade da figura do presidente mecenas, que dilapida o patrimônio pessoal por amor ao clube. Na busca por receitas capazes de sustentar o futebol moderno de altos custos, os ingressos serão impraticáveis, as mensalidades serão majoradas, os estacionamentos servirão ao Aeroporto, espaços ociosos transformar-se-ão em salas comerciais, os licenciamentos serão ainda mais importantes, a mendicância pelas cotas de TV e a máfia do Clube dos 13 ainda mais terríveis.
Numa realidade em que qualquer volante cabeça de bagre ganha mais de R$10 mil para ficar num clube e quase R$1 milhão por ser demitido por justa causa, esse será o preço de se manter um time vencedor, um time de ponta. Será o preço que a torcida pagará para ter o seu time na primeira divisão, mesmo que tenha que ouvir as suas glórias pelo “raidinho” e os gols no dia seguinte, ao meio dia, na TV aberta.
Teve gente que ficou com saudades do tempo do Adolfo Konder, em que podia se assistir aos jogos na sacada da casa ao lado ou entrar em campo pelo buraco do alambrado. Mas, aquele era o tempo do futebol pré-profissional, onde jogadores entravam em campo sem contrato e um Chevette era o máximo em que se podia pensar como luvas para se atrair aquele jogador que desequilibraria nas partidas.
Em 1976, por exemplo, os ingressos do Adolfo Konder não eram tão caros, o problema era o custo da pipoca, da cervejinha e do picolé. Em entrevista ao jornal O Estado, o alfaiate Sérgio Silva dizia que gastava muito dentro do estádio, sempre tomava umas cervejinhas e acabava gastando cinqüenta cruzeiros, mas, se pudesse, gastaria até quinhentos cruzeiros em cerveja e frios.
Já o motorista de caminhão João Santino Tavares e sua esposa, Ilda Ricardina, que quase nunca perdiam uma partida do Avaí, saiam de Palhoça em seu Volkswagen para chegar bem cedo ao estádio. Ilda reclamava que “antigamente” as mulheres pagavam a metade do preço e que hoje (1976) já não era assim: “Agora está tudo igual. Assim está errado”. Há mais de dez anos que o casal freqüentava o Adolfo Konder e davam a fórmula para não gastar demais: sair de casa com o estômago abastecido, para não ser obrigado a gastar dentro do Estádio. Além dos vinte cruzeiros para abastecer o carro, o casal só gastava os quarenta cruzeiros (duas arquibancadas) dos ingressos.
Carlos Roberto Soares, também motorista de caminhão, se mostrava irritado com os preços dos alimentos. “Não sei como eles podem cobrar cinco cruzeiros por um pedacinho de pão com uma salsicha no meio. (...) A entrada até que não é muito cara. A cerveja em lata estão cobrando seis cruzeiros, mas no supermercado eu compro por menos de três”. Carlos Roberto era fanático pelo Avaí e não perdia nenhuma partida. Natural de Lages, quando veio morar em Florianópolis um amigo seu o levou para assistir a um clássico para que ele torcesse pelo Figueirense. Depois da partida, nunca mais deixou de torcer pelo Avaí, a despeito dos preços praticados nas copas do Adolfo Konder.
Personagens antigos, de tempos antigos e que se depender da nova ideologia do futebol, serão varridos das arquibancadas modernas.
Felipe Matos é historiador e membro do blog Minha VidAvaí.
(Fonte: O Estado, 04/10/1976.)
Botelho falou: Parabéns Felipe, esse memória avaiana assim como os outros ficou show. Muito rico em detalhes. É sempre bom relembrar as histórias do Avaí.
Abraço e parabéns
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